
O ralo bilionário: o que as bets tiram e o que devolvem ao Brasil
- Vitor Tosetto
- 1 de jul.
- 6 min de leitura
Atualizado: 4 de jul.
Em pouco mais de dois anos, as casas de apostas online deixaram de ser um personagem coadjuvante da economia brasileira para se tornarem protagonistas de um dos debates mais acalorados do país. Legalizadas em 2018 pela Lei nº 13.756, mas operando numa zona cinzenta até o fim de 2023, as chamadas bets só passaram a ter regulamentação efetiva em 1º de janeiro de 2025. O que se viu desde então foi uma explosão de números — e de dúvidas. Afinal, esse mercado ajuda ou atrapalha o brasileiro?
A dimensão financeira, por si só, impressiona. O Banco Central estima que os apostadores movimentam hoje entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões por mês, e a receita bruta das empresas (o chamado GGR) alcançou R$ 37 bilhões em 2025, segundo a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda. Para dimensionar: somente em agosto de 2024, as bets receberam via Pix mais de dez vezes o que as loterias oficiais da Caixa arrecadaram no mesmo mês. Cerca de 25,2 milhões de brasileiros apostaram em 2025, majoritariamente homens, jovens e das classes C, D e E.
Diante desse cenário, formou-se um embate que ainda não tem vencedor definido. De um lado, entidades como a Confederação Nacional do Comércio (CNC), a Febraban e o próprio Banco Central enxergam nas apostas um fator estrutural de deterioração das finanças familiares. De outro, o setor de jogo e parte do mercado financeiro pedem cautela e apontam causas mais antigas para o endividamento do brasileiro. Vale a pena ouvir os dois lados antes de tirar conclusões.
O que dizem os que veem uma ameaça
O argumento mais contundente vem da CNC. Em estudo divulgado em abril de 2026, usando a metodologia de diferenças em diferenças para tentar isolar o efeito das apostas de outras tendências econômicas, a entidade estimou que entre 268 mil e 270 mil famílias entraram em inadimplência severa por causa das bets, e que o gasto mensal com apostas ultrapassou R$ 30 bilhões em março de 2026 — crescimento de mais de 500% desde janeiro de 2023. O economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, batizou o fenômeno de "efeito substituição": a renda que deveria quitar dívidas ou sustentar o consumo é redirecionada para as plataformas.
Os indicadores de fundo dão sustentação à tese. O comprometimento da renda das famílias atingiu 49,9% em fevereiro de 2026, o maior nível da série histórica do Banco Central. A proporção de famílias endividadas chegou a 80,4% em março de 2026, também recorde. E o mais intrigante é que esse endividamento cresceu apesar da melhora do mercado de trabalho — o desemprego caiu para 5,1% no fim de 2025, mínima histórica — e da desaceleração da inflação. Em circunstâncias normais, isso aliviaria o orçamento doméstico. Ocorreu o oposto, e é justamente esse descolamento que alimenta a suspeita de que um fator novo entrou em cena.
Há ainda o retrato de quem aposta, que agrava o quadro. Pesquisa do Instituto Locomotiva mostra que oito de cada dez apostadores são das classes C, D e E, que 86% têm dívidas e 64% estão negativados. Um levantamento Datafolha revelou que 46% dos brasileiros que apostam o fazem buscando renda extra e para pagar contas — uma distorção perigosa, que confunde aposta com fonte de renda. E o dado que mais chocou o país: em agosto de 2024, 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família enviaram R$ 3 bilhões às bets via Pix, o equivalente a 21% de tudo o que o programa repassou naquele mês. A repercussão foi tamanha que o STF interveio e a Portaria SPA/MF nº 2.217/2025 passou a vedar expressamente a participação de beneficiários de programas sociais.
Nem mesmo a autoridade monetária ficou de fora. O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou à CPI das Bets que as instituições financeiras já relatam "significância estatística" do hábito de apostar sobre o risco de crédito — a aposta, segundo ele, "entrou naquilo que o setor chama de score de crédito", encarecendo o crédito de quem joga. A Febraban, pela voz de seu presidente Isaac Sidney, falou em "bomba-relógio" e defendeu a proibição imediata do uso do cartão de crédito para apostas.
O que dizem os que pedem cautela
O setor de apostas, no entanto, rejeita com veemência o papel de vilão. O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) e a Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) classificaram as conclusões da CNC como "alarmistas" e chegaram a notificar a entidade para exigir transparência sobre as bases de dados. Citando estudo da consultoria LCA, argumentam que as apostas em plataformas licenciadas representaram apenas 0,46% do consumo das famílias em 2025 — metade do que se gasta com streaming — e que o dispêndio líquido médio por apostador seria de cerca de R$ 122 mensais. Para o setor, o verdadeiro culpado do endividamento é antigo e estrutural: o custo elevado do crédito, sobretudo o rotativo do cartão, cujas taxas chegaram a 451,5% ao ano, num ambiente de Selic mantida em patamar alto.
Esse argumento não vem apenas de parte interessada. O Itaú, maior banco privado do país, adotou postura cautelosa em análise de agosto de 2024: seus modelos baseados em renda, crédito, confiança e poupança não identificaram impacto relevante das apostas sobre o varejo, estimando o gasto líquido em torno de R$ 23,9 bilhões ao ano, ou 0,22% do PIB. A própria CNC reconhece que a Selic elevada e o uso intensivo do crédito rotativo são determinantes estruturais e independentes do endividamento. E há um ponto conceitual que merece registro: a aposta, ao contrário do financiamento ou do cartão, não gera por si só uma dívida contratual — ela compete com o consumo e pode levar ao atraso de outras contas, mas não é, tecnicamente, um empréstimo.
O setor lembra ainda que restrições excessivas ao mercado regulado poderiam empurrar apostadores para a clandestinidade, estimada pelo próprio IBJR em cerca de R$ 40 bilhões por ano — território sem qualquer proteção ao consumidor. E aponta contribuições concretas: as bets se tornaram as grandes financiadoras do futebol, com o patrocínio máster dos clubes da Série A saltando de R$ 496 milhões em 2023 para R$ 1,117 bilhão em 2025, além de uma arrecadação fiscal de cerca de R$ 9,95 bilhões em 2025, já se aproximando do que pagam setores como tabaco e agricultura.
A conta que não fecha
Os dois lados têm méritos. A correlação temporal entre a expansão das bets e o recorde de endividamento é robusta, mas a causalidade direta ainda é objeto legítimo de disputa metodológica. Ocorre que, quando se colocam todos os números na balança, o peso pende de forma inequívoca para um lado.
O ponto decisivo não está no volume apostado, e sim em quem aposta e no que se perde além do dinheiro. Um mercado que retira recursos justamente das famílias mais vulneráveis — beneficiários do Bolsa Família, negativados, jovens da Geração Z que confundem aposta com salário — não pode ser tratado como entretenimento neutro.
O estudo do Ieps e da Umane, de dezembro de 2025, oferece o argumento mais eloquente: jogos de azar e apostas custam ao país cerca de R$ 38,8 bilhões anuais, somando mortes, suicídios, desemprego e gastos com saúde, contra uma arrecadação projetada de R$ 12 bilhões. Ainda que se questione cada número isoladamente, a ordem de grandeza é clara: o Estado arrecada pouco mais de um terço do que gasta para remediar os estragos. Some-se a isso o dado de que, de cada R$ 291 de receita das bets, apenas R$ 1 se converteu em salário formal — sinal de que o dinheiro drenado do varejo e das casas dos brasileiros não retorna como renda do trabalho.
As bets, em suma, não são uma fraude nem um simples passatempo. São um negócio legal, lucrativo e, para uma parcela dos apostadores, inofensivo. Mas o balanço social e econômico que emerge das evidências disponíveis é desfavorável: elas concentram ganhos em poucas empresas, dispersam perdas entre milhões de famílias sem capacidade de absorvê-las e transferem ao poder público uma conta de saúde e inadimplência maior do que o tributo que geram. Enquanto o principal argumento a favor for o de que "poderia ser pior na clandestinidade", e o principal argumento contra for medido em famílias inadimplentes e vidas perdidas, a resposta à pergunta inicial permanece incômoda, porém sólida: no Brasil de hoje, as bets atrapalham mais do que ajudam.




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